6/29/2012

A Influência dos Desenhos


A matéria indicada e foi escrita por Daniel Martins de Barros, que é Psiquiatra e filósofo, vale a pena ler!


A culpa é da TV? « Daniel Martins de Barros


6/09/2012

SOU PASTOR


Realizo atos pastorais. Batizo, caso, oro pelos enfermos, visito pessoas, compartilho a Bíblia, celebro a eucaristia, faço velórios e ofícios fúnebres.
Sou um ser ser socialmente “irrelevante” que participo dos momentos mais relevantes das pessoas. Valho pouco para o mercado e para as macro estruturas, mas tenho um valor insubstituível para o cotidiano das gentes.
Gosto muito do que faço, especialmente porque não me acostumei a nada disso. Apesar de fazer geralmente a mesma coisa, cada ato tem vida e importância próprias, que têm o poder de me assustar e alumbrar.
Cada casamento que celebro, me lembra a mística cristã, onde um mais um é um. Um casamento é o primeiro passo na direção da formação de uma família e a família é a expressão mais característica da trindade, pessoas coexistindo de forma tão hamônica a ponto de parecerem um.
Maravilho-me ao batizar alguém. A primeira pessoa que batizei foi um jovem chamado Téo. Téo, Deus. O Deus que me batizou, convidando-me a batizá-lo. Ver alguém professando sua fé no Mestre, descendo às aguás e ressurgindo, como símbolo de morte e ressurreição, faz-me continuar crendo na possibilidade de qualquer pessoa, pela graça do Pai, ser transformada pela ação do Espírito.
Dividir o pão da ceia, servir o cálice, celebrar morte e vida, relembrar o sacrifício com alegria contida pela reverência diante de algo tão grandioso, apesar de singelo, renova minha fé naquele que se deu por mim sendo pão amassado e vinho derramado.
Visitar pessoas, orar com enfermos, compartilhar as Escrituras são o alimento de cada dia. As visitas presenteiam-me com as histórias que estão por detrás dos rostos. A oração pelo que sofre gera a compaixão que me aproxima ao ponto de dividir a dor. O compartilhar, alimenta ao que ouve e ao que fala enquanto a mesa está posta das Sagradas Letras.
“Encomendar” alguém que parte nos põe diante do mistério da morte, algo que nos assusta, nos violenta, tira de nós sem aviso prévio ou licensa àquele(a) que amamos. Sem a consciência da morte, não se dá o valor devido à vida. Sem a certeza de que ela, morte, não é detentora da última palavra, não se vive a esperança do porvir. Poder lembrar as pessoas disso, enquanto choramos juntos, é um privilégio sem igual em meio à dor.
É, sou pastor. A matéria prima de meu ofício é o solo sagrado dos corações das pessoas. Piso descalço, com extremo cuidado. Minhas ferramentas de trabalho são as Escrituras, as orações, os abraços, os ouvidos e a boca de vez em quando.
Sim, sou pastor. Um árduo ofício, tão árduo, quanto belo. Já pensei em desistir meia dúzia de vezes, mas não consegui. No começo, achei que tinha um chamado. Estava enganado. Não tenho um chamado, ele é que me tem.
Sou pastor.
Extraído do Blog do Pr Fabrício Cunha

6/04/2012

MUDANÇAS NA FAMÍLIA


Artigo que escrevi para o curso de pós-graduação em Terapia de Casais e da Família sobre o tema mudanças na família.



MUDANÇAS NA FAMÍLIA

            Quando olhamos ao redor podemos observar atentamente as mudanças estruturais de nossa sociedade, a começar pela família. É só olharmos a 30 anos atrás e veremos que muita coisa mudou na família, a começar na sua própria configuração original. A família tradicional como assim é chamada é formada de Pai, Mãe e filhos, sua base se dá através do papel que eles desempenham, cada um tem seu papel e deve executá-lo conforme o que está estabelecido.
            Nesta configuração podemos colocar o Homem ou Pai como o chefe da família, é um mediador da família com o meio externo, exerce a figura do provedor da casa. Já a mulher ou mãe, é a responsável por manter a unidade do grupo e zela para que tudo esteja no seu devido lugar, e os filhos deve obedecer à determinação deles.
            Analisando esta configuração já podemos observar que nos últimos 30 anos isto já mudou, podemos e devemos entender alguns fatores que ajudam a refletir sobre esta mudança, não podemos deixar de lado as próprias mudanças de nossa sociedade que nos remetem a entender ou enxergar aspectos fundamentais que norteiam a sociedade e sua própria cosmovisão.
            Vivendo sob a influência da sociedade pós-moderna a família é influenciada pelos valores relativistas desta sociedade, entendendo alguns aspectos como a morte do futuro, o prazer precisa se imediato, o desejo vire uma necessidade e o ter, ou melhor, parecer ter é a chave do sucesso.
            Com essa nova visão da vida temos então uma nova dinâmica pessoal e familiar que acaba atingindo diretamente nossos relacionamentos e perspectivas de vida, gerando assim famílias que vivem em um constante desafio, pois essa mudança de paradigma trás novos conceitos e novas maneiras de se encarar a dinâmica familiar.
            Por isso ao olharmos a sociedade de hoje não podemos e nem devemos interpretá-la de maneira simplista, precisamos sim olhar ao redor, através deste prisma, é evidente que isso nos remete a uma transição, porém se faz buscar um olhar para essa realidade de maneira correta, e para isso é necessário que olhemos para essa nova dinâmica.
            Portanto, entendo que neste primeiro momento o grande desafio da sociedade é entender o que está acontecendo, isso é um desafio, pois muitas vezes interpretamos a realidade á luz da nossa realidade familiar que na verdade está ligada ainda a um modelo que ainda existe, porém isso tem mudado e cada vez mais, e por isso encontramos famílias cada dia com uma configuração que não estávamos acostumados.
            Para que comecemos a entender o que isso representa é necessário entender algumas mudanças sociais que são chave para nosso entendimento. Com o advento da pílula anticoncepcional tivemos então a separação da sexualidade da reprodução, ou seja, o sexo pode e deve ser feito por prazer e não apenas para a reprodução.
            A mulher conquista o mercado de trabalho, e a partir daí temos uma guindada nos papéis familiares, pode-se observar que a dinâmica muda, a mulher não fica em casa para fazer os deveres domésticos, mais, passa a ajudar no orçamento.
            Essa configuração trás algumas alterações na dinâmica das famílias, a própria divisão de poder financeiro, tarefas domésticas, educação de filhos, temos ai alguns paradigmas quebrados, a sociedade passou a se adaptar a uma nova realidade de papeis, de mercado e de relacionamentos.
            Em relação aos relacionamentos podemos entender que o número de divórcio aumento pelo fato de que as mulheres tendo independência financeira passam a ter a “coragem” de se divorciar, pois não dependiam do homem para seu sustento e sustento da casa, passaram a enxergar o mundo de maneira diferente e com isso passaram a ter um olhar mais crítico.
            Essa nova relação e inovação de papeis em contrapartida, trás para mulher uma questão que é crucial, a criação de filhos, se no inicio desta nova realidade as crianças ficavam com as avós ou parentes, hoje elas são criadas por babas, creches ou escolas. Isso muitas vezes trás a mulher um peso de culpa já que não passam muito tempo próximo dos filhos.




            Esta configuração remete a muitas famílias que trazem este peso de culpa a ser permissiva e tratar os filhos como “Reis”, pois a filosofia é esta, se não passo tempo com meu filho tenho que compensa-lo de alguma forma. Vivemos hoje numa sociedade consumista, como já vimos às pessoas querem aparentar ter, e muito disso já vem sendo colocado na mente das crianças, já que os pais tentam suprir todas as necessidades dos filhos.
            Nossa sociedade atual tem tido uma tendência de mercado de terceirização, ou seja, eu passo o serviço para os outros, via de regra é isso que tem acontecido em nossa sociedade, os pais deixam a educação por conta da escola, gerando assim uma cobrança em cima da escola, ou seja, eu pago e meu filho deve ter uma boa educação.
            Diante desta situação podemos entender que ao invés de se buscar uma parceria entre escola e pais os pais tem delegado isso a escola, ou seja, o trabalho de colocar regras, limites, responsabilidades é delegado à escola e assim sendo cabe aos pais somente a parte de passear, dar presentes, pois a questão da culpa pela ausência deve ser suprida.
            Além do fator dos filhos serem o centro da família temos que levar em consideração o divórcio e o recasamento, com isso se perde a referência rígida dos papéis no casamento, por exemplo, um homem que se separa, deve ter de rever a sua perspectiva de pai de maneira diferente já que ou não está mais no dia a dia dos filhos ou deve educa-lo não mais contando com a presença da mãe no dia a dia.
            Podemos ainda pensar que dependendo da forma que ocorreu a separação às vezes o diálogo entre os pais é difícil, como muitas vezes acontece o recasamento de um ou de ambos que trazem consigo uma nova pessoa e em alguns casos de outros filhos, onde do dia para a noite se passa a conviver com novos “irmãos”.
            Essa nova dinâmica passa a interferir na dinâmica e nos papeis a serem desenvolvidos pelos pais e filhos, é até por isso que a rede familiar de parentes acaba diminuindo, dificilmente hoje em dia vemos famílias inteiras se reunido para o almoço de domingo, até porque a famosa foto familiar acaba mudando de tempos em tempos. As famílias acabam se reunido de maneira nuclear, pai, mãe e filhos, aquele negócio de tio, tia, primos e primas, só se encontram em casamento e estes cada vez mais raros e funerais.
            Acredito que nossa sociedade viva um tempo de relacionamentos banalizados, é só olharmos para os estágios que antecedem o casamento, antigamente era namorar (rápido), noivado e casamento, hoje nós temos o ficar, namorar, morar junto e talvez se casar.
            Vejo que essa isso demonstra a falta de compromisso em nossos relacionamentos, cada vez mais as pessoas vão tornando seus relacionamentos frágeis e sem vínculos duradouros, gerando assim uma sociedade onde os papeis acabam se fragilizando cada vez mais o que na verdade acaba gerando confusão.
            Dentre esta nova configuração podemos colocar o seguinte , a família tradicional sobre a qual já fizemos nossa colocação, a família reconstituída, aquelas que os pais trazem os filhos do primeiro casamento, onde podemos de fato verificar a fragilidade dos papeis, pois ela sai do básico da família tradicional e parte para um novo tipo de relacionamento como os padastro/madrastas e “irmãos” onde não se sabe de fato como deve ser o relacionamento, o como lhe dar como os conflitos e seus desdobramentos no relacionamento conjugal e o relacionamento com os filhos e com os filhos do outro, sabe-se que a acomodação destas coisas pode levar cerca de nove anos.









            Outro exemplo são as famílias monoparentais, onde apenas cuida do filho, ou por ser solteiro, ou por uma opção da chamada “produção independente”, ou até no caso da viuvez. Neste caso também temos o grande desafio de cuidado com os filhos e a dificuldade de lhe dar com o filho e sua vida pessoal, neste caso há um grande altruísmo em relação aos filhos, porém na idade adulta existe uma cobrança muito grande em relação ao que os pais sozinhos fizeram pelos filhos, já que carregaram sozinhos a criação, e isto lhes dá um certo álibi para cobrar os filhos pelo que fizeram por eles.
            Os filhos principalmente na idade adulta tem muita dificuldade em lhe dar com a cobrança, já que sempre são lembrados que foram criados com sacrifício, que o pai ou a mãe tiveram  que abrir mão de coisas pessoais para poder suprir necessidades, causando às vezes até certo tipo de problema quando os filhos casam e com isso criam uma nova família, gerando uma disputa entre o pai ou mãe e o cônjuge.
            Outro exemplo são as uniões consensuais onde o casal vive cada um na sua casa com seus filhos, não há formalidade, casamento formal, e cada um administra a sua própria casa, isto também gera uma visão de relacionamento muito superficial, pois pelo fato de cada um viver em sua casa pode se criar um ambiente sem compromisso, sem muito envolvimento, ou seja, pode se tornar um relacionamento frágil ou instável, onde se pode priorizar os filhos em detrimento ao relacionamento com o outro.
            Temos também os casais sem filhos por opção, tendem a levar o relacionamento sem a necessidade ou expectativa de ter filhos, isso tem se tornado comum por fatores econômicos pelo fato de se pensar na despesa ou no tempo que os filhos consomem, é importante ressaltar que somente quando isso se dá por consentimento mútuo é que funciona quando isso se dá de forma unilateral tende a criar frustração.
            Hoje também tem sido muito comum às famílias unipessoais, elas via de regra são pessoas que desejam viver uma vida só, inclusive as empresas estão se preocupando em satisfazer este mercado,  os próprios empreendimentos imobiliários tem olhado para este público.
            Temos também a família por associação que se dá pela necessidade ou proximidade, podemos detectar em grupos que vivem longe de casa como os imigrantes e também em grupos religiosos como as Igrejas que indivíduos partilham da mesma fé e por isso acabam pela necessidade e por valores em comum vivendo como uma família.
            Portanto estes exemplos nos mostram a realidade fundamental da família em nossa sociedade, por isso quem trabalha com família deve estar atendo a estas mudanças não podendo deixar de olhar as mudanças de nossa sociedade como um todo. Por isso aos profissionais cabe um vasto campo de trabalho, porém e em contrapartida é necessário estudarmos e nos avaliarmos diante de todos estes desafios.
            Por isso cabe a cada um de nós a busca pelo saber e entender essa realidade que hoje se vive, não podemos deixar de lado esta mudança, é preciso olhar para ela e procurar buscar a reflexão.